quarta-feira, 23 de março de 2011


Essa manhã coloquei tudo em uma caixa: o bonequinho do Pequeno Príncipe, as fotos, aquele CD da sua banda que você me deu, meu diário que só tem você. Olhei para o Pequeno Príncipe antes de fechar a caixa e ele parecia me olhar triste, passivo e impotente, assim como eu também olhei para ele e assim como tenho olhado para o mundo. Dei um abraço forte no boneco e chorei que nem uma criancinha de cinco anos que sofre porque está com rinite alérgica e tem que tirar os brinquedos de pelúcia do quarto. A realidade acabando com a brincadeira mais uma vez. Depois foi a vez das fotos. Beijei uma por uma e guardei na caixa, colocando-a em um canto escondido e alto do armário da minha mãe, no mesmo canto escuro e esquecido por onde anda meu coração. Olhei minha roupa nova e pensei o quanto ela era feia porque eu nunca a colocaria para você. Olhei meus sapatos novos e pensei como seria triste usá-los sem nem saber direito para onde ir. Olhei minha velha cara no espelho e tive muita pena do quanto aquele rosto ainda ia esbugalhar os olhos para o teto lembrando de você. Vire e mexe tenho essa vontade de cortar alguma parte do meu corpo, para ver se esguicho para longe esse sangue contaminado que incha meu corpo de dor e me emagrece de vida.

Tenho vontade de me fazer feridas porque parece mais fácil cuidar de um machucado externo e curável. Outro dia desses eu estava numa padaria com um amigo e ele me perguntou se eu queria um chaveirinho de porquinho, eu disse a ele que só queria morrer, se ele poderia me fazer esse favor. Coitado, ele ficou assustado. No outro dia eu estava num bar com esse amigo e ele começou a falar de todos os filmes, livros e músicas que eu tanto queria que você falasse. No final da noite eu só queria estar ouvindo aqueles CDs do Foo Fighters, Queens Of The Stone Age e Ramones, tudo pra te ter mais perto. Esses intelectuais de merda não chegam aos pés do seu sorriso e nunca vão ter de mim esse amor tão puro, tão absurdo e tão sem fim que eu tenho por você.

A fidelidade não é uma escolha e nem um sacrifício, ela é uma verdade. Por mais que eu tente, só sinto nojo. A gente nem se fala direito mais, eu nem sei mais o que você pensa de mim, eu até tenho o impulso de tentar com outros homens, mas eu só sinto nojo. E a minha cachorrinha, a Audrey? Ela sempre me olha com carinha de compaixão todas às vezes que chego do trabalho triste. Outro dia minha mãe perguntou notícias suas e quando ela ouviu seu nome, enfiou a cabeça no meio das patas e só ficou triste. Ela se parece comigo mesmo. Acho que ela já reconhece seu nome e meu sentimento por você, de tanto que me acompanha nos momentos solitários de choro. Depois do passeio na Liberdade com meu amigo, tive um encontro com minhas amigas no café alí do Itaim. Depois fui cinema com outra amiga e depois, se eu estivesse afim, um barzinho com o pessoal do trabalho. Eu tenho um milhão de motivos para fugir de pensar em você, mas em todos os lugares você vai comigo. Você me olha misterioso quando chego, diz meu nome com um eco que dura o dia inteiro e vira o rosto sem graça quando percebe que estou te olhando. Você prefere não ver, mas eu vejo você o tempo todo.

Eu torço para não fazer Sol, eu torço para não chover, eu torço para acordar no meio do dia, eu torço para o dia acabar logo. Eu torço para ter alguma coisa que me faça torcer, que me diga que eu ainda sei torcer por algo mesmo sem torcer por mim com você. Minha dança é queda equilibrada, minhas roupas novas são fantasias, meu sorriso é espasmo de dor, minha caminhada reta é um círculo que sempre me traz até aqui, meu sono é cansaço de realidade, meu silêncio é o grito mais alto que alguém já deu, minhas noites são clarões horríveis que me arregaçam o peito e nada pode me embalar e aquecer, o frio é interno, o incômodo é interno, nenhum lugar do mundo me conforta. Minha fome é sobrevivência, minha vontade é mecânica, minha beleza é esforço, meu brilho é choro, meus dias são pontes para os dias de verdade que virão quando essa dor acabar, meus segundos são sentidos em milésimos de segundos, o tempo simplesmente não passa.

Às vezes tento não ser eu, porque se eu não for eu, eu não sentirei essa dor. Mas o amor é tanto que até os outros todos que eu posso ser também o sentem. Hoje mais que ontem, amanhã mais que hoje, e por aí vai. Tenho vontade de implodir esse gigante dentro de mim e soltar seu pó a cada manhã sem fome que faz doer o corpo todo, a cada banho sem intenção, a cada tarde sem recompensas, a cada noite sem magia, a cada madrugada sem paz. Um dia o gigante vai cair morto igual ao King Kong e chega dessa dor, dessa incerteza, desse silêncio, dos dias se arrastando, do ódio, das imagens doentias na minha cabeça, da saudade espada que fura meu centro e aumenta o diâmetro a cada movimento. Só vai sobrar uma tristeza eterna em saber, como todos que já viram esse filme sabem, que o rei da selva, o dono do pedaço, o forte, o poderoso, o assustador, o monstro inabalável que bate no peito e destrói qualquer um, o galã Superman só precisava ser amado pelo frágil mocinho. Porque pode até ter uma descolada que te instigue, uma gostosa que te atraia, uma bonitona que namore sua casca. Mas amor igual ao meu, definitivamente, não tem. Daqui de longe, enquanto escrevo esse texto chorando mais do que cabe no meu rosto, ouvindo pela milésima vez a música do Damien Rice e sem vontade nenhuma de ter vontade nenhuma, eu escuto seu riso forte, exagerado e constante. E eu só consigo sentir mais amor e ter menos peito.

JYLF

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