A idéia de hoje era te pedir um favor. Eu apenas chegaria até você e pediria dez minutos. Eu entregaria uma das trezentas e oitenta e três cartas que escrevi ao longo desses trezentos e oitenta e três dias. Na verdade eu a leria pra você, para depois poder queimá-la ao som de uma música bem melosa e aos prantos. Segundo a Luina, isso seria o suficiente para exorcizar o seu fantasma. Faria isso sem oi, sem tchau, sem coisas feitas ou a fazer. Eu não esperaria nada. Nada de você, nada da sua vida. Nada que constatasse reciprocidade. Apenas a sua voz. Esse é só um dos absurdos que passam pela minha cabeça quando me salta você no peito. Como se meu coração fosse uma dessas caixinhas surpresas e você o boneco de mola para assustar crianças. Elas se assustam, mas riem e abrem de novo e de novo a caixa. E amam mais e mais o brinquedo.
Acabei de ver Santiago, o documentário, e tive um acesso de choro daqueles. Ele escreveu sobre toda a aristocracia do mundo e isso arrasou comigo. Arrasou. Ele era o garçom das festas, uma pessoa que servia feliz a uma beleza triste. E no final, não sei se você viu o filme, mas ele quis contar algo pessoal e o apressaram, cortaram, o que ele realmente queria dizer parecia não ter importância. E quase, quase quis te pedir um favor. Mais uma das minhas idéias. Pra você, por alguns minutos, só enquanto eu chorava demais, pra você fazer de conta que abismos não existem. E não existem mesmo, nesses segundos descabidos das horas que não entram no dia. Porque agora, nesse segundo que corri aqui para te escrever, nesse momento não existe essa coisa de hora e de trezentos e oitenta e três dias exatos. Existe só que vamos todos morrer, então para que mesmo o orgulho de sair ileso mais um dia? Mais um dia ileso. Como se não fosse cheios de feridas que raspamos com as costas das mãos as nossas roupas de guerra e dormimos em paz.
Outro dia tive uma idéia. Uma vez por semana, perto das dez horas da noite, eu chegaria sem dizer nada e você também não poderia dizer nada. E então eu sentaria perto e ficaria te olhando um pouco. E aqui não tem nada de idiota não, é bonito, isso que eu quero dizer. E depois acabava mesmo. E isso voltaria a acontecer somente na outra semana. E isso seria um contrato já que meu coração quer tanto. Pro resto da vida. E tudo bem pra você, vai? Sim, seria um contrato, mas olha que maravilha: os outros seis dias sem nada, sem nenhum rastro meu na sua vida. E seria só por uma hora.
Hoje eu estava no estacionamento do shopping e fiquei seguindo as plaquinhas de saída e vi que é isso que faço melhor do que ninguém. São tantas as coisas que eu queria te falar e contar. E eu sigo fantasiando que você é melhor que o restante do mundo. E isso acaba comigo, mas, ao mesmo tempo, me tira um pouco da chatice burra e apática de sempre. E então, me vem a idéia de realmente te contar as coisas. E por isso escrevo. Porque se você um dia entrar aqui para ler é você que, com todo o meu amor que você nem imagina, consegue sentir como sendo seu o meu coração. E então é mesmo essa coisa maluca de eu me livrar do que eu nem sei porque sinto por você, sem nem saber o que você sente, sentir o que já estava aí esse tempo todo.
Hoje eu perguntei a um amigo: Você era feliz com ela? E ele disse: Eu era muito feliz com ela. E muito triste. Sem ela eu não sou nem uma coisa e nem outra. Eu sorri e disse para ele: eu prefiro a vida assim. Ele disse: prefere mesmo? Eu respondi, comendo um pão de queijo: não, não prefiro, mas pelo menos, assim, eu consigo estar aqui conversando com você pesando mais de cinqüenta quilos.
São, sei lá, três e pouco da manhã. Tenho passado boa parte de tudo anestesiado, sem doer, sem sentir tão forte. Às vezes nem parece que aconteceu, porque amar dói tanto, tanto, tanto, que como toda dor, de tão insuportável, produz anestesia própria. Mas o tempo todo, ainda penso e te mostro tudo, o tempo todo. O tempo todo. O tempo todo. Não porque sou um bobo apaixonado. Não porque sou transparente perto de você. Apenas porque apenas.
Lê pra mim um livro. Toca qualquer coisa na sua guitarra. Com a luz apagada. Quando alguém me liga eu fico cheio dos risinhos idiotas porque tiro sarro de quem tenta falar algo e não sai como sairia se fosse você. O maior elogio que eu poderia fazer a uma pessoa era dizer assim: gosto de você além da minha imaginação, não porque aprendi a gostar, mas porque por mais que eu sonhe, você é ainda melhor que o sonho. Você é além da minha capacidade em te imaginar. E eu jamais te diria isso. Não posso te fazer esse elogio. Mas olha, ainda assim, olha eu aqui de novo. Porque você é melhor que a minha imaginação, você é melhor que a minha esperança. Para falar a verdade, é incrível como ao olhar para você, tenho certeza de que sonhei com muito menos.
Mas é isso. Um filme com o maluco do fraque e das castanholas me emociona e pronto. O boneco salta da caixinha e espanca meu peito com cabeçadas duras e olhar macabro. A hora que não entra no dia. E eu mais uma vez preferindo não sair ileso para me sentir menos machucado. Você pode, uma vez por semana, me deixar te olhar, brincar do não abismo, qualquer coisa, só ler, continuar assim, só tocar, não me esquece, por favor. Eu nunca vou esquecer você. Eu nunca soube o que não fazer com você, mas sei exatamente o que fazer com você. Pra tentar te fazer feliz. Isso eu saberia fazer e faria bem. Lembrar que é terrível e incrível. Terrível, esse amor, como poucas (ou nenhuma) coisas foram. Mas absolutamente incrível.
JYLF ♥

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