Dia chuvoso para ir a Liberdade, dia confuso para saber para onde ir. Antes o problema fosse apenas esse centro da cidade, um desses açougues com cartazes amarelos vendendo preços em vermelho. Com pombas em bando na porta, dando cabeçadas sujas no nada. A valeta seca de um canto coberto acompanha o caminho dando um seco também no fundo da garganta. Ônibus bufando no ar carregado de pressas e tosses. Hoje andar na rua cheira mal, pesa, suja, convive. Por essas bandas eu sempre venho de carro, com meu irmão ou com o Diego. E no carro tenho um álcool gel que passo sempre que sinto que o mundo feio me suja um pouco. Tudo me dá nojo. Comecei aos poucos com isso. E foi piorando. A doença não é TOC, antes fosse. A doença é esse achar que tudo é feio e sujo quando não é você. O mundo continua arrogante, preconceituoso, e segue girando enquanto eu me guardo dessas más intenções disfarçadas, nessa solidão desinfetada. Mas de dentro dessas bolhas protetoras, das caixinhas que separam o perfeito do não perfeito, o bonito do feio, o que é de verdade e o que não é, nesse mundo regido pelas regrinhas básicas e ingênuas da emoção, bate alguma coisa desritmada, que me traz impulsos de vida. Um prolapso de sonho. E essa coisa bateu quando eu te vi. O fundo dos seus olhos exalavam um odor de sofrimento que eu não pude evitar. Era doce, muito doce. Mas eu sabia que ia sofrer. Você pegou pra alguém aquele CD, com aquela música que me dilacerava o coração. Em Dezembro, bêbado como nunca, ao me ver em prantos naquela festa, só foi capaz de aumentar o som do mundo em volta. Naquela noite você estava especialmente sujo. Você sumiu e voltou a aparecer no meio da pista de dança, atracado com uma garota tão suja quanto aquele mundo que fazíamos parte naquele momento. As órbitas dos seus olhos giravam ao som do funk vulgar que preenchia todos os lugares. Sua camiseta preta estava amarrotada e lembro que, ao passar do seu lado, senti o cheiro forte e obscuro de uma bebida que não sei até hoje o que é. Depois, na noite do seu show nesse mesmo centro da cidade que ando agora, você agarrou uma baixinha pela cintura que ficou meio tonta com a ação, mas se deixou levar, óbvio. Se deixou levar como se fosse levada pelos ventos de um deus. E eu pensei exatamente em Deus quando senti a dor rasgar o peito e ao vê-la presa na sua ratoeira. Sempre que essas suas necessidades bicho-homem surgem, me afetam tanto que não sei ao certo como encaixar coerências. Por que se humilhar? Essa pergunta todos se fazem. E eu termino envergonhado e enojado. Porque é tudo tão chato, o certo fica errado de repente, o limpo se torna sujo e respinga nos sentimentos puros, enquanto o mundo dorme em falsa paz. Porque o bonito, o puro, o quase infantil de tão feliz, o saudável, todo esse amor virgem, todos são manchados de álcool, cerveja, suores, batons e perfumes baratos. Tudo que pareceu estar indo, apenas voltou como uma dor que nunca me mata, mas me faz voltar triste. E toda a indiferença com que você age, todo o receio de que eu sinta mais e mais algo que você nunca pediu, toda a distância que suja mais a vida cor de rosa. Mas é estranho como eu consigo gostar da sua sujeira, como eu consigo te amar independentemente da sua galinhagem escancarada, do seu jeito de colecionar garotas em um currículo quase tão extenso quanto o meu amor. Eu gosto de ser seu jamais porque tudo o que podia ser com você, você nunca pode com nenhuma outra. Enquanto você banaliza sentimentos e desejos, eu tento permanecer intacto, amando demais, sonhando demais. Eu não quero ficar aqui, mas também não quero voltar e muito menos quero ir. Então me sufoca só para eu sentir um pouco de alivio. Porque eu sinto todas as hipocrisias do universo de uma maneira tão forte e intensa, que prefiro esse minuto em que eu encaro sua figura de pedra e sinto mais uma vez que eu posso te amar sem medo, ao menos naquele instante. Eu tento não sentir a impossibilidade, eu tento não lembrar que o seu jeito de ser feliz é ter todas e o meu jeito de ser feliz é ter você. Porque se eu me apegar a essa constatação, é nesse momento que sinto o vazio terrível que me violenta e separa, a mim e ao meu amor, de você, para sempre. Eu sei que sou intenso, eu sei que parece exagerado. Porque eu não sei amar, menino sujo. E nem você.
JYLF ♥

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