Estou praticamente debruçado em cima do balcão e chamo seu nome com aquele jeito tímido de viver perto de você. Um estranho está entre nós, mas você olha nos meus olhos antes de se dirigir a ele. Reparo rapidamente nos seus detalhes e foco no seu dedão meio estranho. O seu dedão estranho, o detalhe mais imperfeito seu, me parece ser nesse segundo a única coisa que realmente faz o mundo girar. Olho para o dedão e quero uma página branca de Word pra escrever "a imperfeição do seu dedo me parece tão forte agora que faz o mundo inteiro girar". Como é bonita toda a imperfeição do seu dedo e da sua unha, o seu cinto preto combinando com o All Star surrado e o seu andar malandro que dança, se espalha, seduz o ar, mas é tão preso no chão que torna a superfície mais bonita. Está escurecendo e em três horas termina o expediente. Preciso organizar minha vida, encerrar todo o movimento do dia, organizar as escalas dos dias seguintes e verificar se tudo está certo no pedido feito de tarde. Zerar um dia para esperar o outro. Esqueci de todas as obrigações e mergulhei no som do seu “claro, você pode me acompanhar até o computador?”. Eu realmente precisava de uma página em branco de Word, para escrever e descrever todas as sensações. Mas tudo bem. Chega. Combinei comigo que vou escrever sobre outras coisas e não mais sobre essa única coisa sobre a qual escrevo. Passa então um velhinho com um cachorro enorme e eu tento desfocar do tanto que o seu sorriso, o seu dedão estranho e o seu All Star surrado me deixam sem ar. Foco no velhinho. Não quero mais a página em branco do Word. Mas a verdade, meu querido, é que estou pouco me lixando para o velhinho e seu cachorro. Você com sua camiseta vermelha do Queens Of The Stone Age e com seu riso largo demais para o charme sem malícia que você tenta impor, desfocam todo o resto. Você com essa barba despretensiosa. Você com esse cheiro bom que parece ainda mais forte quando a gente se coloca lado a lado para abrir nossos armários. Você com esse cabelo claro, com um redemoinho discreto no topo da cabeça. O que é isso? O que é isso que me dá vontade de te afundar no meu colo e te encher de cafunés ou ficar pequeno e delicado para dormir de conchinha no centro do seu peito? Olhando para o cachorro que agora vai longe com o velhinho, Clarice faria um lindo texto sobre a solidão humana ou sobre a amizade sem palavras, ou até mesmo sobre como é mais bonito quando um ser aceita ser inferior. Ela faria esse texto, publicaria e seria premiada. Mas ela é e sempre será uma escritora respeitada, não é? Eu sou apenas o garoto intenso, de coração batedeira, de tremedeira na existência, de maxilares travados de tanto que dói gostar tanto de tudo. Eu sou apenas o garoto que tenta ser amado. E sou profundamente amado por alguns meses, até me apaixonar por um garoto que recusou meu chocolate por não entender que com aquela caixinha transparente ia junto meu coração. E então eu me pergunto se não deveria lobotomizar meu cérebro para pensar menos, lobotomizar meu coração para sentir menos, lobotomizar meu espírito para estar agora menos encantado pelos seus detalhes imperfeitos. E então eu falaria pouco, teria alguma profissão sonsa dessas que a pessoa fica em cima de apostilas na madrugada ao invés de estar abaixo das estrelas e você poderia me dar a sua mão, entrelaçando meus dedos nos seus, encostando seu dedão estranho no meu, e nós andaríamos pelas bordinhas da calçada e dos canteirinhos do fumódromo da rua detrás. Ou então ser um escritor forte demais, como Clarice, pois assim eu escreveria sobre velhinhos, cachorros e amores que não fossem meus. Quem quer bancar um garoto inteiro coração? Quem quer bancar o menino que escreve sobre dedões imperfeitos, camisetas de banda de rock e sapatos surrados? Homens são inseguros e não sabem lidar com sentimentos, não é mesmo? Eles querem garotas, e garotas normais. Você agora se vira e pega um DVD. Estende o braço e atende ao telefone. Passa a mão no cabelo e diz seu nome desejando boa noite para o ser do outro lado da linha. Mas antes passa o olhar por mim, só para me deixar sem ar. Acho que você descobriu os efeitos que causa em mim. Um amigo seu me disse uma vez que deve ser bem legal ter um garoto como eu prestando atenção. A verdade é que você saberia melhor o que fazer se eu fosse outra pessoa, mas acho que algo dentro dessas covardias machistas simplórias e primatas ainda consegue distinguir como é bem legal ser admirado por alguém como eu. Antes de me pegar sonhando, com seu riso que flutua pelo meu mundo como uma música leve e impossível de tirar do repeat, você olha para trás e diz: "Boa noite, Thiagooo!". E eu jamais poderia escrever sobre o velhinho e sobre o cachorro, até porque eles desapareceram e eu nem percebi.
JYLF ♥

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