domingo, 17 de abril de 2011

Virada Cultural, madrugada de sexta-feira para sábado. E sabe, mais uma vez eu vendo o que não queria. Lembrei-me do dia 11 de Dezembro de 2O1O, festa da Cultura. O sentimento foi o mesmo. O dilaceramento também. A carta abaixo foi escrita um dia após a festa, mas a intensidade dessa dor é a mesma cada vez que lembro. Dói. Muito. Mas estou aqui, esperando. Esperando não sentir mais. Esperando, porque é o que resta.

Em 12 de Dezembro de 2O1O.
(Um dia após a festa da Cultura...)

À direita da pista tem um bar e em frente ao bar tem um sofá. Estou sentado nesse sofá. Aguardo ansioso por algo, olho as horas no celular, tento prestar atenção nas pessoas à minha volta, reclamo com minha amiga: “cadê?”. Ela me pergunta se é o show, se é o garçom a passar com a comida. O que é? Não sei, mas não estou encontrando. Em cima da pista tem um daqueles globos que sempre tem. Olho para o globo e penso que estou uma eternidade sentado naquele sofá. Descanso os cotovelos nos joelhos e me arrependo; enquanto todos querem ver e ser vistos, eu fico nessa posição feia de vaso sanitário. Minha amiga vai beber. Eu me animo, afinal já tenho para onde ir. Eu não bebo, eu odeio tudo que seja alcoólico, eu odeio atravessar a festa inteira para chegar até lá fora, eu odeio a amizade instantânea das rodinhas de fumantes que não se conhecem, eu odeio festas em geral, eu odeio papos de festa, eu odeio conhecer gente que não tem nada a ver comigo e sorrir para os papos mais furados do mundo. Mas eu já tenho para onde ir. E vou. E ao chegar lá fora, continuo procurando. Sinto falta do sofá agora. Mas quando minha amiga acabar a bebida, já terei novamente para onde ir. E assim a festa tão esperada vai se tornando uma daquelas festas chatas, que me lembram muito a vida sem ele. A eterna oscilação entre ir lá fora ver, passar pela pista e voltar para o sofá, sempre só para ter para onde ir. Chegou agora um cara. Ele já até se declarou pra mim, mas eu não o quis. Ele se aproxima malicioso na pista de dança, eu faço uma gracinha e desvio. Ele me olha e respeita minha centésima recusa. Ele me abraça e eu não sinto nada. Nada. Nada, não, pensando bem, sinto sim. Falta de que aquele abraço fosse de outros braços. Mas cadê? Olho de novo as horas no celular. Eu posso ir ao banheiro e isso já é um lugar para ir. Me animo. Não, não me animo. Tudo me deprime. Eu ficar me equilibrando em cima de um coturno plataforma, eu suportar os olhos encarando meu short curto, eu ficar fazendo minha cara de “não encosta em mim”. Tudo me deprime. As pessoas falando do trabalho, as pessoas forçando falar qualquer absurdo só porque o óbvio seria falar de trabalho. E principalmente: os grupinhos de moças com roupas justas, disputando o prêmio de roupa mais curta da noite. Tudo é tão chato, mas eu me produzi inteiro. Antes das quatro não dá para ir embora. Preciso me gastar um pouco para não dormir tão antes de tudo dar errado. Eu sei, eu deveria beber. Mas para quê? Para achar essas pessoas legais? Para suportar o insuportável? Sou cínico demais para dar esse gostinho ao mundo. E eis que finalmente encontro. O rapaz que, a menos de vinte e quatro horas, se desmanchava em um sorriso ao ver os presentes que escolhi só para causar esse efeito. O rapaz que cuidava de todos os meus pedidos, que dizia meu nome com um eco interminável e que, vez ou outra, me olhava de canto de olho quando nos encontrávamos no mesmo andar. E do nada surgiu uma dessas mocinhas de roupas justas e curtas, falando com ele ao pé do ouvido. E meu Deus, como doeu! Doeu. E ele estava lá, lindo, rindo. E ele só reforça meu pé inquieto batendo ritmadamente: “cadê?”. Não sei. Não, não se esconde mais. Olho para a porta por onde ele acabou de passar. Eu fui à festa por causa dele. Então era isso, eu estava procurando o tal do moço que estava flertando com outra. Ele nota minha presença, mas não diz uma palavra. Será que ele sabe o motivo de eu estar ali? Ele olha para mim, faz que vem em minha direção, mas desvia para o bar ao ver tanta gente à minha volta. Meu coração quase sai pela boca. Ele volta para o grupinho onde todo mundo se elogia, fala de trabalho, conhece gente, faz piadinha ruim. Mas tá todo mundo pensando o que vai ter para comer e também para comer. Eu vim aqui porque, sei lá, desde que te vi pela primeira vez e vi o seu jeito fofo de falar, eu fiquei com vontade de ser seu. Então, não dá para pedir para esse bando de amigos chatos desaparecer do mapa? A menina atirada de roupa justa e curta, com celulite na perna, por favor, te deixar em paz? Você pode, por favor, parar de mexer no cabelo dessa menina e parar de dar risadinhas no ouvido dela para sumir daqui comigo? Não, ele não pode. Ele não é a resposta. Ah, Thiago, você deveria saber. Eles nunca são a resposta. Nunca foram. O que é que você quer? Por que você olha tanto para o celular? Existe alguém no mundo, nesse momento, que poderia te ligar agora e te deixar feliz? Sim, ele é a resposta. Ele e mais ninguém. Nem o sofá, nem a festa, nem ficar em casa, nem a água com gás, nem olhar com nojo para o grupo de piriguetes vips que não prestam para nada a não ser freqüentar festas para aparecer. Mas cadê ele? Ele está lá, perdido na boca dela. E eu? Eu ali, assistindo tudo, o coração dilacerado por cada beijo interminável. Mas esse era o previsto. E afinal, a maquiagem tinha custado cara demais para eu ir para casa antes de borrá-la. Cadê? Ah sim, agora eu tenho o que procurar e o que esperar: o carro. A verdade é que a única coisa que estava esperando e querendo era ir embora. De todos os lugares, de todas as pessoas. Agora não estou esperando mais nada a não ser o tempo todo sair de onde eu estou.

JYLF 

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