Mais um dia perto, igual faz pouco mais de um ano. Você corre pra cima e pra baixo, tenta ignorar a minha presença, ri com seus colegas, fala com as pessoas, mas alguém pergunta se aceita Hipercard e você descobre que vai ter de perguntar isso pra mim. Chegou a hora de falar comigo.
Você não sabe ao certo o que eu vejo em você, mas também não sabe ao certo o que não vejo. Aí você me chama, com aquele ar descompromissado e meigo de quem só quer a resposta para uma pergunta. E eu não faço a menor idéia do que vejo em você, mas também não faço idéia do que não vejo. Eu posso ter um cara mais bonito, mais gostoso ou mais inteligente, como de fato já tive a oportunidade milhares de vezes. Mas por alguma razão prefiro seu riso de menino e seu jeito homem de ser. Você é uma criança, um bobo alegre, um galinha. Mas você é você. E talvez seja só por isso que eu ainda te ame: você pode ter todos os defeitos do mundo, mais ainda é melhor do que o resto do mundo.
Então eu olho pro seu dedo estranho, pros pêlos loiros do seu braço e pro seu cabelo dourado e penso que tudo vai dar certo. E eu tento encontrar um motivo, mas descubro que seus atrativos se apóiam uns nos outros. Você me atrai como um todo, como uma soma insubstituível de atrativos.
Aí a gente, sem saber ao certo o que está fazendo ali, mas sem lugar melhor para estar, acaba aturando os acontecimentos corriqueiros que nos obrigam a falar um com o outro. Sempre os mesmos assuntos de mais de um ano que, assim como a sua risada, nunca cansam ou enjoam.
E aí acontece um fenômeno muito estranho comigo. Mesmo quando não é bom, mesmo quando cansado e indiferente você mal olha pra mim e vira pro lado pra voltar à sua bolha de tudo o que é seu, eu sempre me apaixono por você. Todas as vezes que te vi, nesses últimos treze meses, eu sempre me apaixonei por você. Eu sempre estive pronto pra começar algo, pra viver de verdade, pra passear de mãos dadas no parque, pra poder te apresentar ao sol sem ser interrompido por essa gente louca ou olhares curiosos, pra escutar uma música nova. E você sempre ignorou esse fato, seguindo seu caminho que sempre é interrompido pelo vazio das suas meninas fúteis e vazias, porém bem mais gostosas do que eu. Eu nunca vou entender. Eu nunca vou saber porque a vida é assim. Eu nunca vou entender porque eu continuo voltando pra casa querendo ser de alguém, ainda que a gente esteja um ao lado do outro. Eu nunca vou entender porque você é exatamente o que eu quero, eu tenho exatamente o que você precisa, mas as nossas exatidões não funcionam numa conta de mais.
Eu só sei que agora eu vou tomar um banho, vou esfregar a bucha o mais forte possível na minha pele, vou escovar a língua pra tirar o gosto que seu nome causa na minha boca e vou me dizer pela milésima vez que essa foi a última vez que vou ficar sem entender nada. Mas aí, daqui alguns dias, igual faz há um ano, você vai me procurar. Seja pra dizer um oi ou pra fazer alguma pergunta boba. Seja pela rotina ou pela obrigação. Querendo saber de algo, querendo se esconder como sempre. E eu estarei lá, para o que der e vier, para ser ou fazer o que você precisa. Eu estarei no mesmo lugar, esperando. Não porque eu seja um idiota, não me dê valor ou não tenha nada melhor pra fazer. Apenas porque você me lembra o mistério da vida. Apenas porque você me faz acreditar na felicidade, mesmo ciente de todo o sofrimento que me espera. Simplesmente porque é assim que a gente faz com a nossa própria existência: não entendemos nada, mas continuamos insistindo.
JYLF ♥

Nenhum comentário:
Postar um comentário