Em O6 de Outubro de 2O1O.
(Meu aniversário...)
Um a um foram chegando, e eu somando a quantidade de amor que tenho no mundo. Somando as dezenas de e-mails mais a várias ligações e recados nas redes sociais, é... até que sou bem amado. Calma, você é amado, tá vendo? Não precisa se trancar sozinho em casa de pijama assistindo aos filmes da Audrey Hepburn, você é amado. É que às vezes dá preguiça de existir, porque seria tão mais fácil aturar a vida sabendo que tem você. Agora sem você, meu amigo, a coisa é feia.
Comemoro que estou vivo, no meio da confusão que é comemorar ter amigos, comemorar a blusa nova, comemorar que tenho emprego e, por isso, amigos e roupa nova, comemorar que não sou um alien e consigo socializar, comemorar que existo dentro de uma parte significativa de uma comunidade que me aceita e até sai comigo para beber suco de morango enquanto o mundo enche a cara de cerveja.
Sorri em todas as fotos, esgotei minhas piadas, desfilei abraços e beijinhos, toquei em muita gente, ganhei presentes, fiz bem meu papel de “olha que legal, estou aqui, mais um ano se passou e continuo achando que vale a pena estar aqui”.
Um a um vão embora, e eu somando a quantidade de amor que vai embora. Sobram os sons das risadas, uma latinha de Coca-Cola em um canto, algumas cadeiras solitárias formando uma rodinha animada, alguns guardanapos amassados que insinuam um animado papo que não existe mais. Sobro eu, novamente.
A vida, a noite, as festas, tudo continua igual. O mesmo cheiro do cigarro de algumas pessoas, o mesmo homem bonito que fica de longe, o mesmo homem bonito que, quando chega perto, eu gostaria que tivesse permanecido longe. O mesmo ânimo em pertencer, a mesma alegria em comemorar, a mesma festa em se encontrar. Mas ninguém sabe exatamente ao que pertence, o que comemora e muito menos o que encontra.
Atravesso a rua sozinho, carregando uma sacola cheia de presentes e cartinhas. Pego o meu ônibus raramente vazio, coloco o fone no ouvido e ouço a música da semana. Sigo em frente, carregando o afeto que ganhei em uma sacolinha lilás, mas dentro do coração sempre o saco furado e negro. Por mais que todas as terapias do mundo, todas as auto-ajudas do universo e todos os amigos mais experientes do planeta me digam que preciso definitivamente não precisar de você, meu coração aqui dentro grita que, por mais feliz que eu seja, a festa é sempre pela metade.
É você que eu sempre busco com minha gargalhada alta, com minha perdição humana em festejar porque preciso festejar, com minha solidão cansada de se enganar. Não agüento mais os mesmos papos, os mesmos cheiros, as mesmas gírias, os mesmos erros, a volta por cima, o rímel para realçar meus olhos, o queixo empinado, a postura que me projeta para frente. Não agüento mais fingir com toda força do mundo que tudo bem festejar sem ter você.
Eu não acredito mais em fugir do país, em trocar de emprego, em mudar de religião, em namorar qualquer outro cara, em ficar em silêncio até que tudo se acalme, em dormir até tarde, no pôr-do-sol, na nova proposta, no novo projeto, no super livro, no filme genial, na galera, na academia ou na dieta, no pretendente quase perfeito que sabe tudo sobre todos os livros do mundo, no restaurante charmoso, no curso de fotografia, em comprar o novo CD mais master desejado do mundo, em ler longe de tudo, em ser aquele enjoadinho que faz a unha toda semana, em fazer ballet ou brigadeiro, em ser determinado, em ser fashion, em não ser nada. Mas continuo acreditando que tudo sem você é distração e tudo com você é vida.
Como eu queria agora ir para a sua casa, deitar na sua cama, deitar a cabeça no seu braço e esquentar meu pé na batata da sua perna. Como eu queria sussurrar seu nome, sentir seu cheiro e ver da janela a calçada molhada da sua rua.
Assim como um dia um samba saiu procurando alguém, este texto tem a missão de sair em sua busca. Eu não escrevo por dinheiro, inteligência, pretensão, tédio ou vaidade. Eu escrevo porque eu sei que é assim que vou te encontrar. Eu escrevo porque não posso mais agüentar que a festa acabe sem você aqui comigo.
JYLF ♥

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