domingo, 6 de março de 2011

Em O5 de Março de 2O11.
(Depois de um mês sem te ver...)

“... e o coração imprudentemente pôs-se a bater alto demais sob o risco
de acordar o gigantesco mundo que dormia.”
 (Clarice Lispector)

Já tinha um mês e resolvi enfrentar. Toda pessoa de cabelo loiro que entrava na empresa eu achava que era você. Assim como quando estou na rua, no supermercado, na fila do cinema, dormindo. Virei um caçador de pessoas loiras. Virei um caçador de você em todas as pessoas. Então você chegou. E eu apenas sorri. Porque era isso, eu queria te ver apenas. Era como se eu tivesse colocado a dor em uma caixinha debaixo dos meus pés para me levantar do buraco e ficar mais alto para poder te abraçar sem dor por um segundo. Eu te acho bonito de formas tão variadas, profundas e insuportáveis. Eu vejo você parecendo um solzinho, pra lá e pra cá, correndo e trabalhando. O rei sol escolhendo o momento de brilhar. Com sua eterna pose solícita, mas desconfiada, de quem tenta decifrar palavras e olhares. Suas respostas distantes de quem tenta se defender da tristeza que nada baixa nos meus olhos. Da sua incompreensão com o que existe em mim, da forma como você se mantém longe para não te fazer mal, para não me fazer mal. Mas faz. Se manter longe. Você. Seus olhos. Em volta aquele castanho ardente e no centro o sol feliz e novo chegando. E tudo isso vem forte como um buquê de flores de aço no meu estômago. E eu quero ir até você e dizer que eu tenho em um vídeo caseiro beeem antigo, todo o show da sua banda em Jundiaí. E que eu vejo e revejo este vídeo sempre, para nunca esquecer o que senti no momento em que vi você pela primeira vez. E como eu queria tocar o sons mais belos do mundo para te fazer feliz. E como eu gosto de você por tudo o que você faz. Como gosto quando você encontra alguém e precisa falar naquela hora, antes que a frieza das suas obrigações o distraia. Como gosto das suas dicas de discos e observações de filmes. Os olhinhos. Seus olhinhos concentrados na guitarra me matam. Você me deixando arrepiado com cada acorde. Você sorrindo bobo. Essas suas perfeições em detalhes dormem e acordam comigo. Acariciam e perfuram meu peito vinte e quatro horas por dia. Uma saudade dos zilhões de segundos te olhando e sentindo tudo isso. A loucura de te ver beijando uma qualquer e, mesmo assim, continuar te amando. Fora tudo o que guardei de você, me restou uma certa consideração que você tem por mim. Os favores trocados profissionalmente. Os cumprimentos tão incógnitos e tímidos. Sua indiferença disfarçada em gentileza por não gostar de mim é a maneira clara de pedir perdão por ser o cara que parte levando um coração. Você é o mocinho que se desculpa pelo próprio bandido. Finjo que aceito suas considerações, mas é apenas para ter novamente o segundo. Como o segundo do abraço de ano novo, quando consegui, por um segundo, te abraçar sem dor. O segundo do seu nome no meu ouvido. O segundo da sua voz do outro lado, como se fosse possível eu te amar tudo de novo. Você absoluto brilhando e dominando todos os assuntos e eu esmagado pela sua presença. O segundo onde tudo poderia ser. O segundo em que suspiro e sinto o cheiro da sua vida. Então aceito a sua enorme consideração pequena, responsável, curta, cortante. Aceito você de longe. Aceito suas costas indo. Aceito o último fio loiro virando a esquina. Não é que aceito. Quem ama assim não come migalhas porque é melhor do que nada, come porque as migalhas constituem o nó que ficou na garganta. Seus pedaços estão colados na gosma entalada de tudo o que existe no espaço dos meus sonhos de menino. Não se digere amor, não se cospe amor, amor é o engasgo que a gente disfarça sorrindo de dor. Aceito sua consideração em não colocar datas nas minhas reservas. Aceito o seu cumprimento baixo, o seu balançar de cabeça, sua falta de profundidade. Aceito apenas porque toda a lama, toda a mágoa, toda a dor e toda a indignação se calam para ver você passar.

JYLF

Nenhum comentário: